Fashion Revolution: entenda por que você deve participar

fashion revolution na urban flowers

A Fashion Revolution 2021 traz números comparativos que mostram como um ativismo consistente pode impactar a sociedade. Veja nesse post os motivos para participar e como fazer parte desse movimento.

O desastre que estimulou a criação da Fashion Revolution aconteceu no dia 24 de abril de 2013, 1.135 pessoas morreram e 2.500 funcionários ficaram feridos após o desabamento do edifício Rana Plaza, prédio que abrigava fábricas têxteis, em Daca, capital de Blangadesh. Grandes marcas globais de fast fashion eram responsáveis pela mão de obra das vítimas que trabalhavam em condições análogas à escravidão. O imóvel deveria ter sido interditado no dia anterior ao desabamento devido a fissuras nas estruturas, mas os proprietários dessas fábricas obrigaram os trabalhadores a irem trabalhar mesmo assim. O acidente evidenciou a negligência, exploração e a falta de transparência que a indústria da moda abriga. O fato sensibilizou o conselho global de profissionais que decidiu se posicionar e criar um movimento único para provocar transformações positivas, justas e também conscientizar sobre o real valor que pagamos por cada peça que compramos.

Edifício Rana Plaza após o desabamento. Foto/Reprodução: Zakir Hossain Chowdhury

Foi a partir dessa tragédia que surgiu o movimento Fashion Revolution, que começou apenas com um dia anual, e agora propõe uma semana inteira de reflexões e engajamento para mudar o mundo da moda. O FR já está presente em mais de 100 países e já foram realizados eventos, ações, rodas de conversas, workshops e exibições de filmes que promovem mudanças de comportamento para consumidores, empresas e profissionais da moda. Nesse ano, o evento será online e acontecerá do dia 19 a 25 de abril, aqui você pode acompanhar a programação completa da semana Fashion Revolution 2021. A ideia central do movimento é mobilizar e conscientizar as pessoas para o acontecido, para que possamos reivindicar por uma moda mais ética, com valorização de todos os meios de produção e pela adoção de práticas mais sustentáveis e transparentes por parte das empresas. A co-fundadora do movimento, Orsola de Castro, completa: “Nós queremos que você pergunte: ‘Quem fez minhas roupas?’. Essa ação irá incentivar as pessoas a imaginarem o “fio condutor” do vestuário, passando pelo costureiro até chegar no agricultor que cultivou o algodão que dá origem aos tecidos. Esperamos iniciar um processo de descoberta, aumentando a conscientização de que a compra é apenas o último passo de uma longa jornada que envolve centenas de pessoas, e realçando a força de trabalho invisível por trás das roupas que vestimos”.

Existem 21 milhões de pessoas em condições de trabalho análogo à escravidão no mundo.

(Organização Internacional do Trabalho)

Impactos da moda no meio ambiente

O movimento Fashion Revolution traz impactos positivos e perspectivas de mudanças, mas ele também carrega consigo a necessidade de olhar para o que precisa ser mudado. Você sabia que, se levarmos em conta os mecanismos naturais que influenciam o clima, a atividade humana é responsável por 100% do aquecimento global que vem ocorrendo desde o início da Revolução Industrial? O mercado fashion cresceu de forma consistente, mas desordenada e nociva para as pessoas e para o planeta. Desde a matéria-prima até o descarte, o modelo econômico vigente é irresponsável e baseia-se em uma lógica linear de superprodução, consumismo e descarte. Precisamos reconhecer e fomentar alternativas e outros modelos econômicos. Antes de tudo, é necessário compreender melhor o impacto da indústria da moda no mundo.

A MATÉRIA PRIMA

O fio

A fabricação de 35% das roupas no mundo tem o algodão como matéria-prima. Para o cultivo, é comum o uso de pesticidas, inseticidas e grande quantidade de água. Isso acaba por afetar os trabalhadores rurais, os biomas e contamina os recursos hídricos do planeta.

Uma camiseta gasta em média 2.720 litros de água para ser produzida. É a mesma quantidade que nós costumamos beber em 3 anos.

(Fashion Revolution)

Além disso, temos o poliéster, que é a fibra sintética mais usada no mundo e gasta em torno de 70 milhões de barris de petróleo para ser produzida anualmente. Demora aproximadamente 200 anos para se decompor.

Esses fios, ao serem lavados, desintegram-se em micropartículas, chamadas de microplásticos. Nós já explicamos mais sobre eles aqui. Essas partículas são, muitas vezes, invisíveis a olho nu e impossíveis de filtrar nos tratamentos de água. Isso faz com que elas cheguem até os oceanos e, consequentemente, nos nossos corpos, através da água e dos alimentos que ingerimos. Já a viscose, feita a partir da celulose, provoca a derrubada de 70 milhões de árvores todos os anos.

O couro

A indústria calçadista em geral se apoia como sendo subproduto da atividade mais poluente do planeta: a pecuária. Além de toda a questão moral e ética que cerca o confinamento e abate desumano de animais, a criação de estoque vivo (que termo horrível) emite 25 vezes mais poluentes para atmosfera do que os demais setores da indústria. Através do gás metano. Anualmente, são produzidos mais de 2 bilhões de metros quadrados de couro.

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de couro bovino, e a criação de gado é responsável por cerca de 80% do desmatamento no país.

(Global Fashion Agenda)

Curtumes

Nós já explicamos sobre a produção do couro anteriormente e os impactos dos curtumes. A prática mais comum de preservação do couro é por meio do uso de cromo. Metal pesado, altamente poluente e tóxico. Ele coloca em risco não somente o meio ambiente, como a saúde das pessoas que fazem parte desse processo.

Os tingimentos e beneficiamento de tecido equivalem a mais ou menos 20% da poluição de água potável do mundo. Estima-se que para 1kg de tecido, são necessários 600 litros de água. Por isso, é importante questionar a ideia de ”couro sustentável” ou ”couro ecológico” que a indústria, preocupada em perder o mercado, começou a vender para o consumidor na ideia de fazer com que a pessoa que está comprando o ”couro ecológico”, sinta-se fazendo o bem e contribuindo para o meio ambiente.

”O planeta vai se vingar de nós, ou então nós seremos a vingança do planeta”.

(Nós somos o clima – Jonathan Safran Foer)

O DESCARTE

O mundo implora por práticas de consumo mais conscientes. Não há mais tempo para meias ações, nossos recursos estão esgotando e se não tomarmos ações eficazes e capazes de mudanças urgentes, teremos falhado enquanto sociedade e continuaremos lamentando enquanto o mundo entra em colapso sob os nossos olhos. Eu sei, não são palavras boas de serem lidas, mas uma coisa é certa: o impacto dessas palavras é minúsculo perto da realidade que está diante de nós e da que nos aguarda em um futuro próximo.

A cultura do fast fashion estimula fabricações de qualidade ruim, com preços baixos e peças praticamente descartáveis. Assim, os países mais ricos consomem porque são eles que tem o poder aquisitivo para consumir, mas o descarte acontece longe dos seus olhos. Normalmente, são descartados em navios com toneladas de lixo têxtil e, muitas vezes, tóxicos, que são comercializados para continentes asiáticos que padecem em verdadeiros lixões de roupa a céu aberto. O mundo também implora por um descarte consciente e as empresas precisam se responsabilizar por tudo aquilo que produzem.

Lixões se tornaram cemitérios a céu aberto de roupas. Reprodução: Documentário The true Cost (2015)

DIREITOS HUMANOS

Se ficou claro que o planeta adoece e empobrece com a economia fashion, agora precisamos falar das pessoas que fazem essa roda girar. O trabalho escravo contemporâneo é uma realidade cruel dessa indústria. E ele se manifesta principalmente em países que não tem fortes políticas e fiscalizações, ou seja, países emergentes e com a economia enfraquecida. Muitas vezes, superpopulosos e com abismos sociais, como China e Índia. No geral, as condições de trabalho são insalubres e colocam em risco a integridade física e emocional da classe trabalhadora. Acreditamos que a crise ambiental seja causada por grandes forças externas e por si só pode ser resolvida por essas grandes forças externas, mas reconhecer que nós somos os responsáveis pelo problema é o começo da tomada de responsabilidade em prol da solução.

No Brasil, entre 2016 e 2018, a cada cinco trabalhadores resgatados em situação análoga à escravidão, quatro eram negros.

(Reporter Brasil via SIT)

O Brasil é o quarto maior produtor de roupas do mundo, gerando 8 milhões de empregos diretos e indiretos – 75% da mão de obra é composta de mulheres.

(ABIT)

Foto/Reprodução: Documentário The True Cost (2015)

Por que a transparência é importante?

“Transparência é respeito ao consumidor, pois ele deve ter acesso às informações sobre aquilo que compra.” Cida Trajano – Presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Vestuário

Quando o desabamento do Edifício Rana Plaza aconteceu, pessoas tiveram que vasculhar os escombros à procura das etiquetas das roupas. Era preciso identificar quais marcas estavam ligadas as cinco confecções instaladas no prédio. Algumas marcas levaram semanas para se posicionar e explicar por que suas etiquetas estavam nas ruínas dos prédios e que tipo de contato de compra eles tinham com aqueles fornecedores. A grande maioria das marcas não possui fábricas próprias, o que dificulta a rastreabilidade e o monitoramento das condições de trabalho e gestões ambientais. Para a produção de suas coleções, que normalmente são feitas quinzenalmente ou mensalmente, a níveis desenfreados (posso dizer isso porque vejo essa realidade bem de perto), muitos serviços acabam sendo, não só terceirizados, mas ”quarteirizados” e até ”quinteirizados”. Analisando esse cenário de desvalorização da mão de obra, fica o questionamento: quanto resta de remuneração para a primeira pessoa que participou lá no início do processo?

Agora pense naquela blusa que você pagou R$30, quanto desse valor ficou para cada pessoa da cadeia produtiva? Tendo em vista que a produção de uma peça de roupa envolve muitas etapas que vai desde a colheita do algodão, até a preparação do fio, a tecelagem, o tingimento, o corte, a costura e vários outros processos que se diferenciam dependendo da peça que formos analisar. Os processos até podem variar, mas podemos ter certeza de uma coisa: o trabalhador recebe uma fatia muito pequena, minúscula, se comparado ao lucro das grandes marcas envolvidas.

No setor calçadista, é muito comum contratos entre grandes empresas e pequenos ateliês com prazos de pagamentos de 90 dias, sendo que quem não tem condições de ”se manter” é o pequeno que terá que produzir antes e receber depois desses três meses e, ainda, arcar com os custos dessa produção. Como um pequeno atelier mantém sua produção funcionando se as empresas não pagam em dia pelos sapatos produzidos? Como eles mantém o salário dos seus funcionários? De fato, não há uma distribuição igualitária, sequer justa, dos salários e um comprometimento com a pessoa assalariada. Normalmente, essas grandes empresas ”monopolizam” a mão de obra de vários ateliês menores, ou seja, todos eles ficam dependentes da demanda das grandes marcas. Se os pedidos são cancelados, o que aconteceu muito durante a pandemia, todos ficam sem serviço e aí acontece a demissão desses trabalhadores.

Nesse sentido, a construção de uma nova estrutura, muitas vezes, requer um desmonte das estruturas já existentes, mesmo que ainda estejamos tão acostumados a vê-las a ponto de nem as vermos mais. Precisamos nos sensibilizar e agir para que essas condições de trabalho não façam mais parte da vida da maioria dos trabalhadores.

COMO SE ENGAJAR NESSA MUDANÇA?

A Fashion Revolution Brasil incentiva a participação das empresas, mas quem faz a diferença ajudando a exigir o posicionamento são todas as pessoas que participam.

1 – Faça uma selfie com a etiqueta da marca que está vestindo.

2 – Pergunte na legenda:

@ nomedamarca

#QuemfezMinhasRoupas?

#FashionRevolution

Assim você gera uma provocação de transparência e cada vez mais marcas vão aderir ao movimento e reavaliar seus métodos de produção.

”Quando é preciso haver uma mudança radical, muitos dizem que é impossível impulsioná-la com ações individuais, e por isso, qualquer tentativa seria em vão. Esse é o exato oposto da verdade: a impotência da ação individual é uma razão para todo mundo tentar.” – Nós somos o clima – Jonathan Safran Foer

O papel da nossa empresa

Essa é a galera responsável por produzir os sapatos da Urban. Se você já comprou um sapato nosso, saiba que ele passou por todos que estão aqui <3

A Urban Flowers se inspira e aprende muito a cada ano com a Fashion Revolution. Desde o início da marca, nos comprometemos com a nossa responsabilidade social. Ainda somos uma empresa pequena, mas foi com os aprendizados e informações que encontramos através de movimentos como esse que, em 2019, decidimos ter nosso próprio atelier e abrimos a primeira fábrica de calçados veganos do sul do Brasil.

Essa mudança nos possibilitou enxergar a necessidade de um contato mais próximo e humanizado de todas as pessoas envolvidas no processo. Por questões financeiras ainda temos alguns processos terceirizados, como a preparação da sola. Nossa meta é que até 2023 tenhamos todos os processos sob nossa responsabilidade, trazendo toda mão-de-obra terceirizada para dentro de nossa produção.

No ano de 2021 decidimos participar da FR mostrando a galera da Urban dentro e fora da empresa. Também vamos informar as novidades que surgiram nesse ano, como a nossa própria compostagem e a substituição para energia limpa com placas solares.

Acreditamos que só é possível humanizar nossos processos quando buscamos conhecer as pessoas que estão ao nosso redor. O que nos enche o coração de motivação é ver o relato de algumas pessoas de nossa equipe dizendo que consideram seus colegas como família.

A mudança

Se não soubermos quando, como e onde nossas roupas e sapatos são feitos, se torna praticamente impossível de ser realizado um trabalho conjunto para resolver os problemas antes que eles terminem em tragédia. A relação precisa ser horizontal entre toda a cadeia de produção, as marcas e os consumidores. É necessário e urgente a construção de empresas menos hierárquicas, com sistemas mais horizontais e que valorizem a importância de cada ser.

Porém, para que isso ocorra, é fundamental que possamos participar de movimentos como o Fashion Revolution Brasil, que nos permite abrir reflexões, debates e nos conduz para a ação. Dessa forma, podemos exercer os nossos papéis como consumidores conscientes e, ao expor a realidade das condições de trabalho da indústria da moda e nos colocarmos como seres que tem consciência de que a roda de produção-consumo falhou e continua falhando, podemos fazer com que essa insatisfação se torne uma revolução e que na linha de frente de nossas reinvindicações estejam todas as pautas em que acreditamos.

Uma cadeia que seja justa e ética para todos contempla o meio ambiente, os animais humanos e não humanos. As empresas precisam posicionar-se e adotar práticas mais transparentes e que vise a dignidade do todo. Não é possível mudar a nossa relação com o trabalho se não houver uma mudança no modo como enxergamos o que nos cerca: o nosso planeta como nosso lar e tudo o que o constitui como uma grande teia de interconexões. Somente assim é que conseguiremos permanecer firmes na luta por um mundo melhor para todos que o habitam (e quando falamos em todos, é porque não acreditamos em compaixão seletiva e em uma transformação que não envolva todo o sistema).

E que possamos ter em mente: sempre que alguém estiver para trás, voltaremos para buscá-lo, até que todos estejamos caminhando juntos. A mudança só é possível se ela for sistêmica. E nós, como seres humanos e parte desse sistema, precisamos fazer uma maratona para correr atrás das mudanças. que desejamos. Vamos juntos?

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